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20 de out. de 2020

Série Ocultos: Lobisomens e seus clãs

outubro 20, 2020 0 Comments

 Esta página é uma visão geral do tipo de lobisomens que você encontra na Série Ocultos.

Geral: Os Lobisomens são uma raça que evoluiu separadamente dos humanos, mas de modo paralelo. Ao contrário das lendas ninguém vira lobisomem é preciso nascer um. Os primeiros lobisomens conseguiam procriar com os humanos e geravam crianças mortas ou novos lobisomens, e por isso, tem lobisomens de todas as etnias. Mas esses filhos híbridos só conseguiam procriar entre lobisomens puros. Atualmente só existem lobisomens capazes de gerarem filhos entre lobisomens. Se um lobisomem tem filhos com humanos nasce uma Besta da Lua (um ser descontrolado e monstruoso).

Características físicas:

São considerados quimeras que possuem dois DNAS dentro de uma mesma célula. Esse DNA tem capacidade de desligar e ligar conforme a vontade do indivíduo provocando a metamorfose do corpo. Os vestígios mais antigos dessa raça foi encontrada no norte do Canadá, Inglaterra e Europa, adaptando-se em lugares muito frios normalmente com neve. Ninguém sabe exatamente como se tornaram o quê são.

Ao alcançarem a maturidade entre 16 e 18 anos se transformam pela primeira vez em lobo na mudança de lua, normalmente ocorre na lua cheia. A primeira transformação é realizada sem controle, algo sentido pelo lobisomem e simplesmente acontece, mas logo o lobisomem adquire a capacidade de transformar-se em lobo ou humano quando desejar.

Lobisomens vivem centenas de anos, ninguém sabe ao certo, o mais velho lobisomem conhecido viveu 453 anos. Mas devido sua natureza selvagem e invocada é difícil que passem dos 200 primeiros anos. Se desenvolvem igualmente a um humano até realizarem a primeira transformação, após isso as marcas do envelhecimento começam a atingir um estágio mais lento. Assim parecem muito mais novos do que realmente são. 

Seus ossos são maleáveis e flexivos permitindo que os reloquem e os torçam para adquirir a forma de lobo, algo que ocorre naturalmente sem dores ou quebras. Seus órgãos são equiparados com os dos humanos, e quando estão na forma de lobo, estes apenas se apertam ou esticam para caber na caixa torácica de lobo. Já seu cérebro é diferente das duas espécies, parecendo muito com o cérebro humano com os córtices frontal bem desenvolvido, sistema límbico, e as áreas da fala e percepção. Contudo apresenta uma área olfativa, visual, auditiva aumentada que se assemelha a de um lobo. Durante a transformação em lobo, o cérebro praticamente se mantém da mesma forma, por isso são lobos com crânios maiores do que o normal, o que lhes da uma aparência de lobos grandes e quadrados.

Os olhos dos lobisomens parecem com os de humanos, contudo sua constituição interna é diferente, pois eles conseguem ver bem no escuro. A íris muda de cor e altera seu formato quando se está como lobo. Embora, a cor mantém-se próxima a de quando se estava como humanos.

São mais ágeis, mais fortes (a força de quatro homens adultos), ouvem longe e tem o faro apurado, conseguem identificar batidas do coração e dilatação da pupila os sentimentos básicos dos humanos com facilidade e dos outros lobos com mais dificuldade. Quando furiosos ou ao sofrem dores, costumam rosnar  e atingir um estado de meia metamorfose ao projetar seus quatro caninos, modificar a cor de seus olhos como os de um lobo, e suas unhas engrossam e crescem torando-se garras, dando um aspecto de fúria. 

Ao transformarem-se em lobos, realmente se parecem com lobos sendo quase impossível de distingui-los de lobos normais em uma primeira olhada, embora sejam 1/3 maiores que lobos normais e com cabeças mais largas. No entanto, ao olhá-los mais de perto percebe-se  características distintas como: manter o mesmo número de dentes do que quando humanos, os dentes apenas de espicham tornando-se mais finos e compridos como de um lobo. E em suas patas traseiras mantém os cinco dedos de humanos ao invés de quatro como os lobos normais. No entanto, apesar de sentirem-se mais “livres e selvagens” no estado de lobo eles têm a consciência preservada.

A cor do pelo quando na forma de lobo é bastante variada, tendo uma relação próxima a cor do cabelo quando humanos.  Os lobisomens também tem as variações genéticas herdadas de seus clãs, o quê os destaca facilmente. 

Cura e Morte:

Lobisomens tem um poder de cura aumentado, ferimentos que demorariam semanas para serem cicatrizados em humanos são curados em apenas uns dois ou três dias. Ferimentos mais leves se curam em horas ou minutos. Os ferimentos não deixam cicatrizes a não ser os feitos com armas de prata. Eles possuem uma alergia a prata, estes ferimentos demoram mais a serem curados e causam muita dor, assim os torna mais fácil de serem abatidos. É quase impossível que fiquem doentes, no entanto a raiva é uma das poucas doenças que os podem atacar, e as doenças mentais como loucura.

Por serem resistentes a dor, mais fortes e ágeis costumam continuar a avançar sobre seu caçador mesmo após terem levados alguns tiros ou golpes, o que salienta a lenda de serem impossíveis de matar, mas não é verdade. 

A metamorfose exige muita energia do corpo, por isso depois eles sentem-se famintos, sendo comum  irem caçar. Se um lobisomem está desnutrido ou muito fraco ele não consegue se transformar, não podendo voltar a forma humana e nem a forma lobo, o máximo ficar na meia metamorfose. 

Um lobisomem morre na forma de lobo, continua na forma de lobo, ou vice-versa ele não se metamorfoseia, a não ser que morra durante o processo de transformação, assim ela se completa, pois quando é iniciado (passando da meia- transformação) não pode mais ser parada. 

Vida com humanos:

A maioria dos clãs vive em contato com a sociedade humana. Há lobisomens infiltrados em todos os ramos (hospitais, delegacias de polícia, na política, em pesquisas científicas), principalmente como garantia de manter sua existência escondida.  No entanto, costumam ter muitos lugares privados só  para lobisomens, onde podem ser eles mesmos.

O envolvimento com humanos na maioria dos clãs é vista como uma necessidade para manter as coisas em paz, assim não é mal visto amizades ou até romances com humanos. Alguns humanos quando provam ser confiáveis até participam da “vida lobisomem”. Os clãs se dividem principalmente pelo modo como é essa relação com os humanos, mas todos seguem as mesmas leis básicas de primeiro o bem-estar dos lobisomens, ou seja, mantê-los escondidos e seguros. 

Resumo dos clãs:

Cada clã e sub-clã tem suas próprias culturas, ritos de passagem e de casamento, marcas, formas de vidas, regras que vão sendo apresentadas durante as histórias. Mas o quê realmente os separa é o modo como lidam com a sociedade humana.
Saiba mais sobre os ocultos, aqui.
Beijinhos, S. G. Conzatti.

Como surgiu a Série Ocultos? E o quê ainda tem por vir?

outubro 20, 2020 0 Comments

 

 Sempre amei ler, ver filmes e séries com lobisomens e vampiros, mas nunca tinha pensando em escrever sobre. Lá em 2013 assisti uma série chamada Lost Girl, e não sei explicar exatamente o quê acendeu dentro de mim. O fato é que comecei a imaginar como seria escrever sobre lobisomens e assim a sementinha dos Ocultos surgiu e foi amadurecendo pelos anos.


Escrevi alguns contos com o tema: "Fome" e "Divã Vermelho", e comecei pensar mais sobre esses personagens e tantos outros que pareciam gritar dentro de mim para serem moldados. E com o passar dos anos o universo foi sendo aprimorado e crescendo.


Algumas ideias de histórias com vampiros e outras envolvendo guerreiros lendários surgiram como mundos separados, no entanto, quando me dei conta eles haviam se cruzado em histórias cada vez mais complexas até que se fundiram.


Foi, então em 2019, depois de me sentir órfão ao terminar de ler Instrumentos Mortais e todas as suas histórias paralelas (melhor série de todos os tempos), me entreguei ao planejamento de como os Ocultos poderiam realmente criar vida. E assim, surgiram muitas e muitas histórias a serem contadas. Há contos em diferentes épocas que irão introduzir as origens de alguns acontecimentos e das relações entre os personagens. Também haverá histórias focadas nos clãs dos lobisomens, outras nos vampiros e mais algumas nos Caçadores chamados de Escorpião. Mas o quê unirá todos os Ocultos será duas séries de livros quando estes precisarão enfrentar um mal maior. E claro, espero que muitas outras histórias pipoquem em minha mente para eu poder compartilhar com vocês.

 

Assim, como qualquer outro autor, essa Série nasce da influência de todos os autores maravilhosos que li. Sendo Anne Rice e Cassandra Clare minhas principais inspirações, e espero conseguir do meu próprio jeito criar histórias tão vívidas quando elas. Pensar nesses personagens tão cheios de vontades faz eu me sentir mais viva e super empolgada, e torço conseguir transmitir para vocês, meus leitores, tudo isso.


Sejam muito bem-vindos para iniciar essa aventura assustadora comigo.


Beijinhos, S. G. Conzatti.

Ebooks já publicados na Amazon da Série Ocultos (Aqui)

Histórias dentro da Série dos Ocultos

outubro 20, 2020 0 Comments


Na série Ocultos as histórias e personagens se entrelaçam em alguns momentos de modo bombástico e em outros sem quase perceberem. Mas é certo que esses pequenos ou grandes encontros sempre marcam os personagens de algum modo. 

Leia as histórias na ordem que preferir, pois são independentes entre si. Mas irei acrescentar aqui a cronologia de quando as histórias aconteceram dentro do universo dos Ocultos. Assim, quem sabe, descubra a origem de alguns personagens, seus traumas. Ou  até o futuro de outros? E se divirta montando a teia de relação entre criaturas que podem estar entre nós por séculos ou apenas algumas décadas. 

  • 1905 - Conto Alexei (em produção)
  • 1920 - Conto O guardião e a princesa: Na década e 1920 um jovem lobisomem precisa sobreviver ao duro treinamento ao ser enviado para o Santuário e assim manter a tradição de ser um Guardião de sua raça. Mas ele descobrirá que naquele lugar amizades e paixões também são possíveis. E ao fim o jovem aprendiz terá que escolher entre seu dever e um amor proibido. 
  • 1952 e 1953 - Contos O jovem Acrobata: Nos anos 50, em uma casa sobre rodas um velho lobo e seus tutelados vão de cidade em cidade encantando o público com suas acrobacias e danças com fogo em busca de seu sustento. Ao entrarem no Santuário dos lobos, para uma apresentação circense, o jovem Max percebe que esse não será apenas mais um show. No segundo conto, dois anos após, Max ainda é jovem, no entanto não é mais o mesmo. Agora ele compreende seu coração e terá que lidar com todas as consequências desses sentimentos, enquanto ajuda um Lobo Solitário a sobreviver em uma sociedade organizada em clãs rivais.
  • 1986 - Anoitecer sem fim: Cris é um adolescente, no qual, um erro o levou para uma temporada na ala psiquiátrica. Enquanto tenta voltar para sua vida normal, Alícia cruza seu caminho. A misteriosa garota o arrastará para uma realidade de Ocultos sugadores de sangue, da qual ele não tem certeza se deseja fugir ou mergulhar fundo. Uma história sobre a descoberta de si, do amor e do perdão tendo como pano de fundo o colorido anos 80, com seus fliperamas, filmes de terror e fitas cassetes.
  • 2014 - Conto Fome: Lucas é um adolescente animado para ir ao show de sua banda preferida "Red Wolves", mas um estranho e a crescente fome sentida pode atrapalhar seus planos.
  • 2016 - Olhar âmbar: Vince tem um passado obscuro. Ele vive como um fantasma, dormindo em telhados e fugindo de seus perseguidores até conhecer uma misteriosa cantora, Isabela. Vince sabe os perigos de se entregar ao amor, mas não pôde evitar. E isso arrasta o casal para um destino incerto carregado de sangue, amor e música. Será que sobreviverão a esse submundo de dentes e garras?
  • 2028 - Divã Vermelho: Uma noite chuvosa. Um divã vermelho. Um psicanalista cansado e uma nova paciente em uma conversa escorregadia e com segredos nas entrelinhas. Um encontro que poderá ser mortal quando as máscaras caírem.

Já leu todos ou alguns? Quer me contar suas teorias de como esses personagens se interligam? Ou apenas conversar com spoilers? Seja bem-vinda(o) na sessão de fãs grátis (AQUI) 

31 de dez. de 2018

Divã Vermelho- conto

dezembro 31, 2018 0 Comments

A chuva torrencial escorria pela grande vidraça do consultório. Observei os faróis a alguns andares abaixo ao esperar minha última paciente da semana, Srta. Luna Missio. Aceitara atendê-la fora do horário, no avançado da noite, pois era difícil dizer não a uma criatura tão formosa.

Um suspiro cansado ecoou de minha garganta, passei os dedos pelo cabelo salpicado dos primeiros fios brancos. Nesse exato momento meu único desejo era relaxar na banheira ao som de música clássica enquanto fumava um cigarro.

O silêncio se interrompeu por duas batidas suaves na porta, a espera acabara. A jovem entrou no consultório retirando o longo casaco encharcado pela chuva, sacudiu os cabelos louros e encarou-me de modo enigmático.

— Continuamos de onde paramos na sessão anterior?

— Como desejar, senhorita.

Convidei-a com um gesto a se deitar no divã vermelho de veludo e sentei em minha cadeira habitual de psicanalista mais atrás. Discreto, vasculhei minhas anotações da sessão anterior, à procura da primeira de Luna. Entre tantos pacientes, às vezes, era difícil recordar as particularidades de cada um. “Em luto pela morte do pai” foram as únicas palavras escritas por mim, mas seriam suficientes para retomar.

Luna respirava lentamente observando a água escorrer pelo vidro da janela. Na sessão anterior foi o mesmo. Ela tinha seu próprio tempo para começar e eu paciência para esperar.

— Sinto falta de caçar com meu pai. — ela soltou em um suspiro pensativo sem desviar o olhar da chuva.

— É o que mais sente falta? — observei na tentativa de compreender sua dor.

— Uma caçada foi nosso último momento juntos. Meu pai era o melhor caçador de nosso grupo — Luna respondeu com força, indicava mágoa. Seu olhar me analisou em silêncio.

Senti-me incomodado, tinha uma espécie de fogo naqueles olhos claros, um misto de raiva e desejo.
— Como se sente sobre isso?

Ela desviou o olhar novamente para a chuva. A aceleração do movimento de sobe e desce de seu peito me mostrou sua tristeza. Minha intuição treinada me dizia haver algo não dito. Fatigado, passei a mão nos cabelos à espera da resposta.

Observei-a de relance, ela possuía uma pálida beleza intrigante, com cabelos e cílios claros quase brancos e olhos azuis como piscinas. Os lábios vermelhos contrastavam com o resto monocromático, constantemente sérios. A jovem tinha uma sensualidade natural, como se todos os movimentos, desde sua respiração e o modo como olhava melancólica a chuva, me convocasse a tocá-la.

Rapidamente desviei o olhar, havia cometido alguns erros no passado ao me envolver com mulheres jovens. Erros que custaram meu casamento e quase a perda de minha licença, não erraria novamente.

— Dr. Machado, você já caçou? — Inesperadamente ela me fitou em clara fuga da pergunta anterior.

— Estamos aqui para compreender você, não para falar de mim — disse no automático profissional, embora começasse a suar frio quando ela mordeu o lábio inferior. Meu olhar focou os ponteiros do relógio na parede imaginando se aguentaria manter escondido meu impulso predatório até o fim da sessão.

— Queria saber sua resposta. — Ela girou o rosto, me encarando enigmática. Ajeitei-me na cadeira, desviei o olhar para minhas anotações. Aqueles olhos translúcidos dificultavam minha luta interna em manter-me profissional. — Então, Dr. Machado, você já caçou alguma vez? — Ela se sentou no divã, mantendo seu olhar no meu.

— Não é um costume. — Engoli em seco, confuso se a forçava a retornar para suas questões ou mantinha essa linha de conversa. Ela mordeu os lábios em espera, isso me desarmou completamente.

O terapeuta desaparecera e o modo homem entrou em ação. — Participei, a alguns anos, de uma caçada a porcos selvagens com uns amigos.

— E como foi? — Os olhos dela me focaram com intensidade enquanto ela ia em direção ao seu casaco úmido, que fora pendurado no cabide atrás da porta, e retirava um maço de cigarros do bolso.

— Emocionante — respondi acompanhando-a com o olhar. Luna retirou um cigarro do maço ao sorrir discretamente. — Você não pode fumar aqui — relembrei-a ao girar a cadeira em sua direção, ela mordiscou a ponta do cigarro em um meio sorriso ao ignorar minha proibição. O flerte estava cristalino, e eu o aceitei com deleite. — Encontramos um lobo branco — comentei na tentativa de salientar minha masculinidade. — Você vai dizer que é mentira. Lobos não deviam existir na América do Sul, mas ele estava lá.

— E você o pegou?

— Sim. — Minha respiração parou quando ela se inclinou e manteve seus olhos emparelhados aos meus, sua mão retirou do bolso de meu casaco meu isqueiro. Quero tocá-la! Pigarreei. — Não conte isso para ninguém. Provavelmente ter um tapete de lobo deve ser ilegal. — tentei me exibir para ela.

— Um tapete! — Séria, ela ergueu a sobrancelha ao acender o cigarro.
Sorri sedutor ao acenar positivamente. Quem sabe poderia convidá-la para ver o tapete? Que coisas inomináveis faríamos sobre ele! Soltei um longo suspiro.

— O senhor tem muitos segredos, Dr. Machado. — Ela deixou o cigarro dançar entre seus dedos, para depois o apagar em minha mesa de madeira. Abri a boca chocado decidido a repreender seu ato de rebeldia. Contudo, ela apoiou a mão em meu ombro e eu apenas me calei. — Sentiu-se poderoso ao matar o lobo, não é?

— Com certeza! — respondi com força. A adrenalina já corria por minhas veias, saboreei o cheiro de seu perfume o qual nem a fumaça do cigarro foi capaz de diluir.

— A grama tornando-se vermelha... — sua voz era suave. Em um movimento sedutor, ela se sentou em meu colo, mantinha as mãos sobre meus ombros. Suspirei desejoso ao agarrar-lhe a cintura. — o animal dando seu último uivo... — um arrepio dançou em meu pescoço com a vibração de sua voz próxima a minha pele, e voltou a me fitar com profundidade. — em um tiro que arrancou seu olho direito. Um ferimento fatal!

— Como sabe disso? — Surpreso encarei-a.

— Eu estava lá!

O sorriso dela se tornou maligno. Os olhos claros pareciam chamas azuladas a queimarem. Assustado e sem compreender o rumo louco daquela conversa, tentei empurrá-la para longe, mas uma dor lancinante atingiu meus ombros.

Horrorizado percebi o sangue escorrer por minha camisa quando suas unhas se tornaram garras e perfuraram minha pele. Antes que eu pudesse controlar, um grito ecoou no fundo de minha garganta ao me deparar com o rosto à minha frente. A delicadeza sumira, os olhos agora tinham um aspecto selvagem e os caninos se projetaram em um focinho de animal.

— O quê?! Deixe-me ir, por favor! — implorei como uma criança, ao tentar me soltar. Aquilo à minha frente não era humano.

Com um rosnado profundo, ela abocanhou meu pescoço com os caninos proeminentes tirando parte da carne, então se afastou. A dor causou-me tontura, mas eu não me deixaria desmaiar. Coloquei as mãos na ferida, meu próprio sangue escorria quente entre meus dedos.

Arrastei-me pelo chão em direção à porta. A chave não estava mais na maçaneta onde eu a deixara. Você está ferrado!, minha mente gritou. Em pânico, bati com os punhos na porta. Sem a chave, seria impossível. O prédio estava vazio nessa hora avançada. Por que aceitei atendê-la?

— Sabe, foi difícil encontrá-lo. — Ela sorriu largamente em gozo, ainda em sua forma meio-humana e meio-lobo.

O que faço? Tentava me manter acordado. Precisava pensar em um modo de escapar desse monstro com rosto de anjo. Minha chance estava em chamar a polícia. Arfando vasculhei meu bolso, com apenas uma mão, à procura do celular sem o encontrar. Meu coração gelou quando avistei Luna sorrir irônica ao mostrar sobre suas mãos a chave e o celular.

— Estou à sua procura há muito tempo. Um tempo adequado para ter aprendido a caçar, afinal. — Ela se levantou e veio até mim. Minha visão começava a embaçar, e sem forças, escorreguei as costas na porta até alcançar o chão.

— Por favor... — engasguei-me no meu próprio sangue. — Deixe-me ir...

— Você deu chance para meu pai? — O rosnado saído de sua garganta fez eu me encolher. — Oh, não! Você apenas atirou pelo prazer de matar, sem pensar nas consequências de seus atos. Usando de covardia, se achando muito macho com uma arma na mão.

— Peço perdão... — Minha voz saiu tremida. Tossi sangue. — Deixe-me ir, por favor... por favor... Deixe-me ir!

Sem dizer nada ela retornou ao estilo humano e meigo de garota de antes, limpou o meu sangue presente em seu rosto com a manga da blusa. Colocou a chave na porta e a abriu.

Sem perder tempo, usei-me das últimas forças para me erguer.
Vacilante, dei o primeiro passo em direção à liberdade. Se conseguisse chegar ao elevador, poderia descer até o porteiro que certamente me levaria ao hospital a poucas quadras de distância. Havia esperança. Sim, havia esperança.

Minha saída foi barrada por um jovem recém-saído da adolescência. Em desespero, agarrei-me à sua camisa em pedido de socorro. Mas, então, minhas últimas forças foram gastas em um grito horrendo ao perceber o brilho selvagem nos olhos dele.

— Seria egoísmo não dividir a caça com o irmão mais novo, não acha? — Ela sorriu vitoriosa ao lado da porta.

Antes que eu pudesse gritar novamente dois lobos brancos, que antes eram Luna e o garoto, me arremessaram no divã.

Meu sangue se misturou ao veludo rubro. Minhas entranhas foram abertas pelos caninos daquelas criaturas monstruosas, a vida se esvaiu. Pensei ser um predador, mas a verdade, agora eu sabia, eu não passava da presa.

Gostaram do conto? Essa história faz parte de muitas outras do Universo Solstícios de Sangue, ainda em construção. Outros textos de lobisomens na Amazon. 
Beijinhos, S. G. Conzatti. 

29 de dez. de 2018

Fome: capítulo 1

dezembro 29, 2018 0 Comments
Primeiro Capítulo:

O trio de amigos se reunia na sorveteria, planejavam os últimos dias de férias antes que suas vidas se modificassem para sempre. Deixariam a segurança da pequena escola e se aventurariam nos imensos corredores da universidade.

Lipe insistia que a amizade seria a mesma, não importava se os cursos escolhidos eram diferentes. Nando se mostrava pessimista. Lucas os ouvia sem opinião, enchia a boca com o crepe quádruplo de queijo e calabresa. Desde que ele fizera dezoito anos, na semana anterior, sentia uma fome constante.
Seus amigos diziam que era hormonal, que eles também passaram por isso no período de crescimento, em anos anteriores. Mas Lucas discordava, tinha impressão de que sua fome estava relacionada à pressão por entrar na vida adulta.

Fazer medicina era seu sonho, e ter passado no vestibular e ainda conseguido uma bolsa parecia bom demais para acreditar. Até sua mãe, uma constante criatura assustada, sorria feliz nestes últimos dias. Era muita responsabilidade, e ele tinha medo de estragar tudo.

— Vejam o que consegui. — Nando jogou sobre a mesa três ingressos para o show de uma banda novata um bocado underground.

— Isso é perfeito para nosso último final de semana. — Lipe sorriu ao analisar os convites pretos com o nome da banda escrita em vermelho como se fosse sangue escorrendo.

— Eu havia combinado de ficar em casa com minha mãe — Lucas se pronunciou. Os amigos lhe lançaram um olhar de deboche, e ele suspirou condescendente. — Ok. Vamos ao show.

Deram-lhe tapinhas amigáveis nas costas ao saírem após combinarem o local de horário de encontro. Ir ao show seria interessante, o problema seria lidar com a frustração de sua mãe.

Os amigos não compreendiam por que ele deixava, com certa frequência, de sair com estes para fazer companhia à mãe. Mas como ele podia deixá-la sozinha com seus medos noturnos? Ela era uma mulher que vivia sobressaltada. Pessoas passando na calçada, ligações, entregadores a baterem na porta, ou apenas um animal pulando no quintal a assustavam de modo a trancar todas as portas e janelas e permanecer tremendo e rezando até o amanhecer.

Lucas perdera as contas de quantas vezes ele fora puxado pelo braço de maneira inesperada e arrastado para fora de um mercado ou uma loja por sua mãe ter visto alguém que lhe causasse pânico. O garoto acatava o gesto dela e lhe seguia silencioso para longe, por desconfiar que todo esse medo era resquício do sofrimento causado pela morte misteriosa de seu pai, quando Lucas era um bebê, a respeito da qual a mãe nunca falava.

Você precisa seguir sua vida! Não poderá mais cuidar da sua mãe, estará envolvido com a faculdade.

A voz em sua cabeça lhe avisava. Ao menos esperava que ao final da medicina tivesse capacidade técnica para curar esse medo crônico de sua mãe.

Ao chegar em casa abriu a porta com cuidado, sem fazer ruído. Usou-se de usa agilidade atlética bem desenvolvida para subir as escadas, passar pela porta do quarto da mãe e alcançar o seu próprio, sem acordá-la de seu descanso da tarde.

Trocou a roupa, tentou encontrar uma camiseta que combinasse com o clima underground do show, encontrou uma preta com a imagem de um zumbi que ganhara juntamente com o box da primeira temporada de Walking Dead em uma rifa da escola, há alguns anos.

Olhou-se no espelho e se achou ridículo, mas servia para o show. Provavelmente Lipe e Nando estariam ainda piores.

Antes de sair, fez um carinho no querido hamster ao aproximá-lo do rosto e beijar seu focinho, largou-o com cuidado sob a rodinha da gaiola e deslizou ligeiro e silencioso pelas escadas até a porta de entrada. Planejava escrever um bilhete para a mãe, mas percebeu-a acordada fazendo o jantar.

— Por Deus, Lucas! — A mãe botou a mão sobre o coração, ao perceber sua presença na porta da cozinha. – Por onde você veio? Não o havia visto.

— Pela escada e depois pelo corredor. — Lucas sorriu amigável. — O mesmo caminho de sempre.

— Não implique com sua mãe — ela o repreendeu. E ao observá-lo ergueu a sobrancelha. — Por que está com essa blusa horrível?

— Vou sair com Lipe e Nando, vamos a um show — ele respondeu de supetão e foi roubar alguns bolinhos de arroz já fritos.

— Pensei que veríamos alguns filmes, e... — Sua voz possuía um enorme desapontamento. Uma sensação de culpa se manifestou, contudo estava decidido a viver mais sua própria vida.

— Você ficará bem e eu ficarei bem. — Ele segurou sua mão, quando ela começou a tremer e derrubou um dos bolinhos fora da panela. — Estarei em casa antes das 23h. Não se preocupe.

— Você está certo. — Ela forçou um sorriso e soltou um suspiro aliviado. — Afinal você já fez dezoito, isso significa que nada de ruim vai acontecer, aquele homem estava errado.

— O quê? — Lucas a observou sem compreender. Minha mãe conversa com homens misteriosos?
Um terapeuta talvez.

— Não é nada. — Ela sorriu. — Você merece se divertir. — Ela lhe beijou a mão, ainda segura entre as dela e sorriu. — Vá, meu filho, e se divirta.

Ver a mãe envolta dessa aura de tranquilidade era raríssimo. Lucas agradeceu a sorte de ela estar em um bom dia. Acenou e saiu antes que o humor dela se transformasse e ele acabasse desistindo de sair com os amigos como fizera tantas vezes.
Confira o capítulo seguinte (em breve)

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Beijinhos, S. G. Conzatti