27 de dez. de 2018

Desafiando Vicente: capítulo 1

dezembro 27, 2018 0 Comments
(Conto de personagem do Clube da Árvore Solitária, presente na coletânea Ponte)

CAPÍTULO UM

O sol do final de verão atingia Vicente em sua potência, o jovem de dezesseis anos pingava de suor, no entanto ainda não entregaria os pontos e deixaria a pista de skate livre para o trio que o observava. Ele almejava acertar o salto duplo pelo menos duas vezes seguidas antes de desistir, apenas assim teria chance de entrar na competição amadora de skate que ocorreria na próxima semana.

Caiu mais uma vez acrescentando novos arranhões aos seus braços já esfolados, e causando as risadas dos observadores. Vicente ajeitou bruscamente seu skate embaixo do braço e finalmente se convenceu de que hoje não seria o dia no qual conseguiria realizar com perfeição um salto duplo, quanto mais dois.
Cabisbaixo, Vicente se afastou da pista. Observou de relance os jovens que agora ocupavam a pista, eles pareciam voar e desafiar qualquer Lei da Física, enquanto iam de um lado para outro realizando piruetas e saltos magníficos. Quando ele conseguiria ser assim tão bom?

A esperança de alcançar seu máximo até o final das férias e entrar no torneio, e quem sabe, se tornar um skatista profissional, esvaía-se aos poucos.
Em poucos dias ele deveria abandonar a casa da avó e retornar para o caos da vida real. O lugar onde Vicente morava durante o restante do ano, em companhia do pai, era solitário e tumultuado.

Seu pai pouco permanecia em casa e quando o fazia, ele e Vicente viviam como cão e gato. Talvez por terem gênios fortes e teimosos, ou talvez porque ambos ainda estivessem abalados com a partida da mãe de Vicente. A mulher não aguentava permanecer em um mesmo lugar por muito tempo: um espírito-livre e rebelde, como sua avó chamava a filha. Destas duas coisas Vicente entendia, pois se algo ele adquiriu de sua mãe, fora essas mesmas duas características. Se queria vê-lo transtornado bastava proibi-lo de passar seu tempo livre zanzando pela rua, não importava onde ele iria, ele apenas precisava sentir o vento.

Apesar de compreender a sensação, isso não o impedia de se sentir uma hora magoado, outra hora com raiva por ter sido deixado para trás. Mas ele evitava pensar nessas coisas, não era de perder tempo com lamentos. O que aconteceu já aconteceu, a vida devia continuar.
Na frente da casa da avó, Vicente parou por um instante, tentou arrumar sua bermuda e camiseta de maneira que parecesse um pouco mais um “netinho querido”, e menos um moleque esfarrapado.
Com a roupa ele até conseguiu um resultado quase satisfatório, se ignorássemos as manchas de barro, no entanto os arranhões dos braços e joelhos não tinham maneiras de esconder.

Vicente abriu a porta da varanda dos fundos espiando para dentro com esperança de não ser visto pela avó e assim poder correr até o quarto para catar uma roupa que melhor tapasse seus novos ferimentos.

— Vicente! — Sua avó chamou animada, infelizmente ela preparava um lanche e o viu entrar pela porta dos fundos. — Vem, querido! Fiz torradas.

— Vou me trocar primeiro.

Ele tentou passar ligeiro por ela com os braços escondidos nas costas, após dar dois passos a voz rouca de sua avó se pronunciou preocupada.

— Querido! Você está todo arranhado! — Ela o encarou fazendo sinal para ele se aproximar, com o objetivo de poder analisar melhor. Vicente obedeceu envergonhado. — Eu não devia ter comprado esse negócio com rodinhas para você. É um brinquedo perigoso!

— É um skate, e não um brinquedo! — Vicente resmungou contrariado ao se sentar na cadeira da sala à espera que a avó trouxesse a caixa onde ela guardava ataduras, merthiolate e outras coisas para emergência. — É um esporte radical, têm até Competições Internacionais.

— Um esporte? — Sua avó questionou incrédula ao derramar o merthiolate sobre o joelho de Vicente. Ele confirmou com seriedade. Ela riu. — Bem, se diz que é, eu acredito. Mas, Vicente, é tão perigoso! Não prefere fazer natação? Já contei que seu avô foi campeão de nado borboleta juvenil? Ele...

Vicente suspirou impaciente esperando que sua avó contasse novamente toda a história de como o avô era bom nadador enquanto enchia as pernas e braços dele com enormes gazes e esparadrapos.
Curativos que ele se livraria assim que alcançasse o quarto. Por mais que a avó fingisse não ver, ele não era mais um garotinho para andar pela rua como uma múmia cheia de pedaços de panos.

Sem contrariar a avó, Vicente comeu suas torradas. Fingia ouvir os últimos detalhes de como seu avô conseguiu superar seu adversário por ter uma técnica avançada de respiração, enquanto na sua mente ele repassava os movimentos necessários para seu salto duplo, como se isso ajudasse seu corpo virar e revirar no momento certo.

Na teoria ele sabia tudo o que precisava ser feito, mas ainda não conseguira atingir o tempo exato que lhe permitisse cair sobre o skate ao invés de ficar estirado no chão.

Leia o próximo capítulo (em breve)
Beijinhos, S. G. Conzatti

25 de dez. de 2018

Trocado para Eduarda: capítulo 1

dezembro 25, 2018 0 Comments
(Conto com personagem do Clube da Árvore Solitária, presente na coletânea Ponte)
 
Capítulo Um
 
Passar os dois meses de férias de verão na praia pode ser o desejo de qualquer jovem, no entanto para Eduarda era apenas uma chata rotina de trabalho. Aos dezesseis anos, ela queria poder esticar uma toalha na areia e bronzear sua pele, enquanto observasse os banhistas passarem, mas sua realidade era bem diferente.

Todo o verão, sua mãe, uma ocupada doceira, resolvia aproveitar a temporada para aumentar o orçamento apertado de todo o ano, e alugava à beira-mar uma barraquinha de churros e crepes. Deste modo, Eduarda passava o verão servindo lanches, entregando trocos e cozinhando saborosos recheios a serem colocados dentro da máquina de churros.

Desanimada, ela pegou a nota de cinquenta reais que uma cliente lhe estendia. Olhou o caixa, frustrada, por não ter dinheiro suficiente para lhe devolver o troco.


— Mãe! — Eduarda chamou, nem precisou levantar a voz, pois a barraca era minúscula, mãe e filha tropeçavam uma na outra todo o tempo. — Estou sem troco!
Sua mãe esticou os olhos para o caixa, equilibrando numa das mãos dois churros e na outra a jarra com a massa do crepe.

— Filha, tente trocar o dinheiro nas outras barracas.

Resmungando para si, Eduarda abandonou a barraquinha com a nota de cinquenta reais presa entre os dedos. Passar nas barracas vizinhas era o que ela mais odiava de suas tarefas de ajudar a mãe no verão.

A mulher suada da banca de pastéis olhou torto para Eduarda quando esta lhe mostrou a nota, e num aceno mal-humorado deixou claro que não estava interessada em realizar tal troca. Eduarda tentou também com o bigodudo da banca de peixes, com o velho estranho da banca de cachorro-quente, sem sucesso algum.

Ela estava convencida a retornar para a sua banca e informar à cliente que desistisse de comprar um churro. Afinal, a mulher podia ir lanchar no restaurante do hotel, se possuía na carteira só notas altas. Eduarda pensou com raiva.

— Menina dos churros! — Uma voz a chamou, ela virou-se em reflexo, pois durante todo o verão esse praticamente passara a ser seu nome. Com certeza isso não lhe agradava, mas ainda era melhor do que os apelidos que normalmente lhe acompanhavam na escola. — Eu tenho notas trocadas.

Ela sorriu aliviada ao perceber que a mulher de longas tranças rastafáris da banca de sucos naturais acenava para ela. Correndo, Eduarda atravessou a rua para ir ao encontro de sua salvadora. Ela nunca fora na banca de sucos naturais, por ser do outro lado da rua e por ela não ser uma grande adepta de frutas.

— Obrigada! — Eduarda se adiantou ao estender o braço com a nota já um pouco amarrotada de tanto sacudir em direção aos outros comerciantes. — Achei que não conseguiria trocar!

— Hoje é seu dia de sorte! — A mulher riu fazendo seus enormes brincos tilintar com o movimento de sua cabeça. — Pode ser tudo em notas de cinco?

— Claro!

— Bob! — A mulher gritou para os fundos da banca.

Por trás de uma cortina colorida que ocultava a cozinha da barraca, um garoto alto e magro apareceu, segurando um saco de laranjas.

— Pô, mãe, estou fazendo o suco. O que quer?

— Olha a língua! — A mulher riu. — Traz dez notas de cinco do esconderijo, a menina dos churros precisa de troco.

— Ah! — O garoto olhou por um tempo para Eduarda, confuso. Então sorriu maroto. — Trago num instante!

Com as pernas já cansada, ela se escorou no balcão enquanto esperava, Bob fora rápido em surgir a sua frente sacudindo várias notas de cinco, como quem ganhou algum ingresso importante e quer mostrar a todos.

— Prontinho! — Ele riu ao estender as notas para ela. — Se precisar de troco novamente é só vir aqui.

— Obrigada.

Acanhada ela acenou para Bob e para a mãe dele, que sorriu simpática. Com passos largos ela tratou de retornar para a chatice de sua barraca.
Sua mãe deveria estar desesperada à espera do troco, contudo fora a sensação engraçada sentida por Eduarda que lhe fez querer se afastar daquela banca de suco, onde havia um rapazinho magro e alto que ainda acompanhava seus passos com olhar curioso.

Leia o próximo capítulo (em breve)

Beijinhos, S. G. Conzatti

21 de dez. de 2018

O Sangue

dezembro 21, 2018 0 Comments
Rodeada de flores coloridas, ervas cheirosas e pequenas árvores frutíferas, Annie se sentou na longa poltrona de madeira forrada com pelos de carneiro. As mãos trêmulas seguravam com dificuldade o pequeno livro, enquanto o fogo estalava na lareira aquecendo a estufa Real.

Apesar de ser uma princesa do Reino do Leste, era a quinta filha entre seis irmãs e dois irmãos; isso, somado à fragilidade de seu sangue, a descartava de futuros arranjos políticos através de um casamento, sendo assim ela era livre das obrigações e dos interesses Reais.

Dispensar as tardes com leituras de poesia e filosofia na estufa era-lhe então possível, enquanto seus irmãos e irmãs se ocupavam com os mais diversos tutores em lições entediantes de política, economia e bons costumes.

O estrondo seco da porta da estufa sendo aberta às pressas e o vento frio fez Annie fixar o olhar assustada na entrada a tempo de avistar um vulto correr entre as plantas e se ocultar num dos cantos escuros.

O livro lhe caiu da mão, sua respiração parou por alguns segundos, assim como seu coração. Pensou em fingir não ter acontecido nada. Talvez fosse apenas sua imaginação, tentou se convencer. Porém, sua visão periférica lhe gritava em alerta de que o vulto ainda estava lá.

Usando-se da misera coragem restante em suas veias, ela se enrolou em uma manta e andou com passos inseguros pela estufa até próximo ao vulto escondido. Seu coração disparava a cada passo dado. Avistou olhos azuis acinzentados como nas noites de tempestades em um rosto oculto pelo capuz de uma capa marrom, sem poder controlar o susto Annie soltou um grito agudo.

— Eu não vou machucá-la. — Aos poucos o vulto se levantou e veio à luz. O jovem a encarava em súplica ao estender as mãos para demonstrar que não era uma ameaça. — Deixe-me ficar aqui, apenas um pouco, até...

Passos agitados e o barulho ritmado das botas de couro e das armaduras laminadas dos guardas Reais ecoaram do lado de fora. A porta da estufa foi aberta por um dos guardas com violência, Annie deu um pulo e pôs a mão no coração. Pela visão periférica, ela percebeu quando o invasor desconhecido escapuliu novamente para o escuro.

— Alteza, desculpe incomodá-la — o guarda disse ao reverenciá-la, ele parecia agitado. — Estamos à procura de um fugitivo. Talvez ele tenha se escondido na estufa.

— Fugitivo? — Ela puxou a manta sobre o peito para afastar o frio e esconder seu nervosismo manifestado em estranhos tremores.

— É um mago perigoso. Seria enforcado, mas enganou nosso carrasco e desapareceu. — O guarda fez sinal para os outros que esperavam ao lado de fora com espadas em punho para entrarem e iniciarem a busca.

— Não há nenhum mago aqui, senhor — ela disse com o máximo de firmeza possível, tentava não entregar o esconderijo com o olhar. De repente contrariar a guarda Real soou como uma aventura de livro e ela não pôde evitar. Uma tosse seca lhe escapou. — Seus homens estão deixando o vento esfriar meu refúgio. Saiam! — ela ordenou em sua pose de princesa, raramente usada por uma criatura tão frágil como ela. — Ou serão responsáveis por me deixar mais doente.

Ao ponderar a fala da princesa, o guarda solicitou aos outros que saíssem e se desculpou com uma reverência ao fechar a porta. Ela podia não ter lá muita importância para o casal Real, contudo ninguém desejaria levar a culpa por ter acelerado sua morte.
Annie abafou mais uma tosse e respirou aliviada. Olhou para o canto escuro:

— Está seguro agora, fugitivo.

— Obrigado, Alteza. — Ele se aproximou alguns passos e se ajoelhou aos pés dela com a cabeça baixa.

Ela achou graça, recebia poucas genuflexões. Fez sinal para ele se levantar e a acompanhar. Ofereceu ao invasor os pães e queijos restantes na bandeja do almoço. Enquanto este saciava a fome, ela aquecia as mãos à frente da lareira.

O fugitivo a observou com o canto dos olhos e ela fez o mesmo. Pensava o que faria a seguir, afinal arriscara sua segurança ao escondê-lo e não tinha certeza de como ele poderia sair do Reino do Leste. 
Teria errado em acobertar um fugitivo? E se ela corresse perigo? As ideias estralavam em sua mente como o fogo a aquecer suas mãos.

— Alteza. — A voz masculina e jovem a convocou, enquanto os olhos acinzentados a observavam curiosos. — Por que me salvou?

— Enforcamentos me dão náusea. — Ela sorriu ao encará-lo. Isso era verdade, mas esse era o motivo?, perguntou-se em silêncio. Então desviou o olhar. — Ainda mais por superstições tolas.

— Então acredita que eu seja inocente das acusações? — O rapaz a encarou surpreso. — Será a primeira neste reino.

— Meu povo é supersticioso! Mas não eu. — Ela sorriu ao soltar a manta sobre a poltrona, quando se sentiu aquecida novamente pelo fogareiro. — Um dragão ser visto rondando o céu no mesmo dia em que chegou ao reino é apenas uma coincidência. Não faz de você um encantador de dragões que deseja arruinar o reino.

— Vossa Alteza é sábia. — Ele sorriu ao reverenciá-la. — Mesmo assim, ainda sou um fugitivo. Por que se preocupar em ajudar-me?

— Seus olhos me dizem que seu coração é bom — soltou sincera em um sussurro. — E não posso concordar que possuidores de bons corações sejam enforcados por estarem no lugar e na hora errada.

— Serei eternamente grato à Vossa Alteza!

— Dei-lhe uma chance de ter mais uma noite de vida. — Ela o fitou com pesar. — Mas não posso lhe garantir outra ou uma rota de fuga.

— Deu-me o necessário. — O rapaz sorriu-lhe, uma fileira de dentes brancos alinhados se mostrou. 

— Ao amanhecer partirei com cuidado, talvez tenha sorte em retornar ao meu lar salvo.

— Talvez.

A tosse e a fraqueza lhe tomaram conta, fazendo-a se arquear para frente. As mãos do rapaz a ampararam e a ajudaram a se deitar sobre a poltrona.

— Vossa Alteza não parece bem.

— Nada diferente de simples rotina.

Ela sorriu na tentativa de afastar o olhar de pena de si. Estes eram frequentes e a incomodavam tanto que preferia se refugiar na adorável estufa. Estava acostumada com sua solidão, interrompida apenas pela aia que vinha trazer-lhe comida três vezes por dia e algumas visitas do curandeiro para averiguar o avanço de sua doença.

— Vossa Alteza será curada. — Ele sorriu ao lhe oferecer um copo de água. — O reino tem grandes curandeiros.

— Meu sangue é doente, os curandeiros nada podem fazer. — Os olhos acinzentados lhe fitaram tristes. Ela lhe sorriu conformada. — Esta é minha vida, estou acostumada a ela. Não tem importância. — E riu irônica. — Diante das circunstâncias, talvez eu viva mais do que você.

— Bom argumento. — Ele fitou-a divertido. — Mas tenho certeza desta noite de vida. Então deixemos de nos preocupar com o amanhã, por enquanto.
Annie consentiu com um aceno. O rapaz pegou um dos livros deixados ao lado da poltrona e o analisou. Os lábios dele se abriram surpresos ao observar as poesias, e citou outras do mesmo autor. 

A princesa se surpreendeu pelo conhecimento do intruso, esses eram livros trazidos de muito longe, presentes de uma de suas irmãs quando se casou com o príncipe do Sul. E se deixou relaxar sobre a poltrona enquanto o estranho de olhos acinzentados lia em voz alta trechos dos livros deixados na estufa.

As duas luas reinavam no céu há um longo tempo e informavam à princesa que era hora de se retirar aos seus aposentos Reais. Seria mais seguro ao visitante que ela saísse da estufa logo, antes que a aia viesse chamá-la.
Interrompeu a leitura do rapaz ao se levantar. Ele a fitava atento ainda com o livro aberto nas mãos, enquanto ela lhe informava sua saída.

— Desejo-lhe uma boa-noite — ela disse com um sorriso tímido nos lábios. — E que sua fuga seja bem-sucedida.

Após um aceno, ela virou em direção à porta. O rapaz segurou sua mão, surpreendendo-a.

— Agradeço novamente sua gentileza em me salvar. — Ele se aproximou com os olhos atentos a ela. 

— Demonstrou ser mais do que uma simples princesa. Seu coração é bom. Por isso, eu lhe concederei um presente.

Enquanto Annie tentava compreender as palavras, os lábios do rapaz selaram os seus. Neste momento, não houve mais pensamentos, apenas o desejo daquele beijo. Um beijo proibido entre uma princesa e um fugitivo, mas um beijo ansiado desde que seus olhos se cruzaram com os azuis acinzentados no canto escuro da estufa.

Ela o envolveu com os braços e os lábios se tornaram urgentes. As mãos do fugitivo apertaram suas costas, pressionando-a sobre seu corpo. O ar faltou-lhe, tentou escapar daquele abraço cruel em vão. Apavorada, fitou pela última vez os olhos acinzentados antes de apagar.

***
Ao amanhecer, Annie acordou em um sobressalto. Estava deitada na poltrona enrolada em sua manta. Olhou para os lados, mas não havia nenhum sinal do misterioso rapaz. Sentou-se enquanto decidia se fora ou não um sonho. Ela mantinha seu olhar furtivo pela estufa. Sentiu o braço latejar dolorido, ao erguer a manga do vestido percebeu um rasgo em seu braço de um ferimento parcialmente coagulado. Confusa, olhou novamente ao redor. O que aconteceu?

Sobre o livro de poesia havia um bilhete. Pegou-o com receio.

“Perdoe-me pelo ferimento, mas era a única maneira de lhe oferecer um pouco do meu sangue de mago, o que irá curá-la. Ao final, algumas superstições se mostram verdadeiras, mesmo que julgadas erroneamente pela maioria. Adeus, Alteza.”

Ela guardou o bilhete dentro de um livro e sorriu sem mais tosses ou cansaço. Guardaria, por décadas, o brilho dos olhos azuis acinzentados que lhe tocou o coração e lhe deu uma nova vida.

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Beijinhos, S. G. Conzatti

24 de nov. de 2018

Sem mas...

novembro 24, 2018 0 Comments
Você é bonita, mas está acima do peso.
Isso que você fez foi lindo, mas por que não tenta mudar esse detalhe.
Não tenho nada contra gays, mas eles deviam se agarrar em casa.
Não sou racista, mas que cabelo é esse?
MAS é uma conjunção adversativa, ou seja, faz contradição a ideia da frase anterior.
Sempre que um elogio vem seguido de MAS, ele perde sua função de elogio e se torna uma crítica.
Sempre que você quer parecer legal, contudo completa a fase com um MAS você apenas está demonstrando todo o seu preconceito verdadeiro.
Vamos pensar sem mas.
Vamos elogiar as pessoas com sinceridade.
Vamos ver o que elas têm de bom, sem precisar relembrá-las de algo que achamos ruim.
Vamos assumir nossos preconceitos, só assim podemos trabalhar em mudá-los.
Se você não consegue se livrar do mas em sua fala, então fique quieto.
Não se finja de legal, pois o MAS entrega a sua verdade.
Muitos anos eu vivi rodeada de MAS, agora decidi dar um basta.
Decidi ignorar os MAS ditos e riscar os MAS de minha fala.
Por um mundo sem MAS onde todos se aceitem com são.


Quais os MAS de suas vidas? 
Beijinhos, S. G. Conzatti

Me convenceram a acreditar

novembro 24, 2018 0 Comments
Começou com notícias inocentes,
Diariamente mostravam sangue em minha TV,
Diariamente traziam imagens de violência.
Diariamente falam que a economia afundaria,
Diariamente apontavam a necessidade de reformas;

De tanto acompanhar a TV comecei a ter medo.
Acreditei que aquilo era a realidade total,
Acreditei que existe só maldade no mundo
Acreditei que as reformas eram necessárias.
Acreditei que os “poderosos” sabiam o que faziam.
Acreditei que eles queriam o nosso bem.

Recheada de medo, achei certo quando expulsaram os imigrantes,
afinal eles roubavam nossos empregos.
Achei certo quando metralharam manifestantes,
afinal eles traziam o caos.
Achei certo quando proibiram “fake news”,
afinal o governo sabe o que é verdade, não é?
Achei certo quando deixei de ter direitos trabalhistas e não ganhar aposentadoria,
afinal o povo precisa ajudar o país economicamente.
Fiquei feliz pelo governo e a mídia me protegerem deste mundo horrível.

E no fim me vi prisioneira e com mais medo.
Agora tenho medo de opinar e ser presa.
Tenho medo de lutar por meus direitos e ser metralhada.
Tenho medo de precisar ir para outro país e ser expulsa.
Tenho medo de perder meu ganha pão, mesmo que seja indigno.
Tenho medo de adoecer, afinal preciso trabalhar até morrer.
Tenho medo da miséria que bate á minha porta.
Tenho medo do futuro.

Mas me fizeram acreditar que sou cidadã de bem por ter apoiado tudo.
Acreditei quando me disseram que queriam um país melhor.
Apenas não percebi era um país melhor para eles.
Um país no qual eles continuassem a aumentar seus milhões.

Mas tive medo e por isso foi fácil me manipular.

Hoje,  ao menos, não acredito mais no que me fizeram acreditar.  

S.G. Conzatti.

7 de mai. de 2018

Book Trailer e Prólogo: Jovem Amor

maio 07, 2018 0 Comments
Assista o Book Trailer
do e-book  Jovem Amor
 
Uma degustação do livro!
Leia o prólogo... 
Ao avistar Emily magnífica, com um jeito mais de mulher amadurecida do que de menina como na última vez que a vi, meu coração disparou e todos os sentimentos adormecidos retornaram com intensidade. O tempo não era cronologicamente grande, porém era evidente que havíamos mudado.
Desejei beijá-la no saguão do aeroporto e jogá-la sobre as malas que estavam no carrinho, contive-me indeciso com um largo sorriso de felicidade no rosto, à espera de sua reação ao ver-me. Primeiramente ela olhou-me com um sorriso tímido, escasso de raiva, e logo após abraçou-me com intensidade, transparecendo a saudade. Retribuí seu gesto da mesma forma.
Vê-la acalorou-me por completo. Quis desesperadamente retornar ao passado e fazer tudo certo desta vez, mas não era possível, teria que recomeçar daqui.
Ela sorriu educadamente, ajudando-me com as malas. Nossos olhos cruzavam-se confusos, a sensação de estar ao lado dela novamente sem poder tocá-la era estranha, assim como no começo de nossa história. Será que acabaria assim: Um distante do outro apesar de querermos ficar perto? Nosso grande amor sucumbira aos erros mútuos? Eu desejava profundamente ter uma segunda chance e, se a tivesse, me esforçaria ao máximo para que nosso amor sobrevivesse a todas as dificuldades.
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