15 de jan. de 2019

7 de jan. de 2019

Quem roubou meu Glamour?

janeiro 07, 2019 0 Comments
(conto com personagens coadjuvantes do livro Jovem Amor )
Rebeca olhou ao seu redor desiludida. Ela lutara tanto, mas estava longe de poder mostrar aos outros o seu verdadeiro poder. Desde novinha, sentia que nascera para brilhar. A mãe a fez acreditar como ela era especial. E Rebeca se convenceu que seria famosa de algum feito, que ganharia destaque entre a multidão e que viveria rodeada de glamour.
No entanto, a cada ano esse sonho morria mais um pouco. Primeiramente, pareceu impossível quando engravidara. Ao casar-se com Giovanni, pai da filha que esperava, tiveram anos de dificuldade financeira. Mesmo sentindo-se péssima, apoiou a carreira e os estudos do marido enquanto mantinha-se apenas em subempregos, nada glamorosos como ela projetara ao entrar na adolescência.
Seu marido conseguiu se tornar professor universitário e o padrão de vida que levavam finalmente começou a percorrer uma trajetória promissora. Ela pôde, finalmente, retomar seus estudos e investir em sua própria carreira. Seu sonho estava a poucos passos de ser concretizado.
Mas a realidade ainda a empurrava para longe do verdadeiro valor que sabia ter; passava por restaurantes caríssimos, bares da moda, lojas renomadas internacionalmente sem poder aproveitar nada do que via. Frustrava-se cada vez mais por ninguém perceber como ela se esforçava e era, sim, merecedora de tais coisas.
Quando comprara o seu apartamento, ficara encantada com a fachada envidraçada e moderna, um orgulho que lhe foi arrancado poucos anos após, pois agora não passava de um pequeno prédio oprimido por seus vizinhos imponentes. Todo dia, quando era obrigada a deparar-se com os novos prédios, mais e mais glamorosos e interessantes, Rebeca simplesmente não conseguia mais sentir-se à vontade em seu próprio lar. Trazer os amigos e colegas de serviço para esse simplório prédio passou a ver uma vergonha desesperadamente evitada.
Começou a trabalhar exaustivamente com o único objetivo de alcançar seus desejos: juntar dinheiro suficiente para mudar-se para a melhor cobertura do bairro mais importante da cidade. A cada olhada em sua conta bancária, esse sonho parecia mais distante. Então, se ocupava em pelo menos ela própria tornar-se o símbolo de sucesso, investindo em roupas chiquérrimas, cremes, perfumes, joias, um carro importado e móveis exclusivos, além de emperiquitar a filha e tentar deixar seu marido mais apresentável.
Giovanni, um caso perdido. Nunca usava as roupas finas que ela gastava tanto para comprar; sempre passeando horrivelmente de moletom pela casa ou pior, uma vergonha, indo assim até a padaria ou até a praça com a filha. Se não era possível mudá-lo, fazendo dele um homem requintado, pensou que talvez pudesse persuadi-lo a trazer uma quantia maior de dinheiro para o lar, auxiliando-a pelo menos a mostrar para todos o seu verdadeiro valor, comprando um apartamento melhor.
Tentou convencer seu marido a pegar um terceiro turno como professor na faculdade, mas ele não lhe deu ouvidos. Revoltou-se com o descaso dele, com a recusa de fazê-la feliz. Ele não a amava, ela soube disso naquele momento.
Sozinha em seus objetivos, decidiu que seria forte, que alcançaria por si própria seus sonhos. Redobrou seu horário no serviço, almejando conseguir logo uma promoção. Quem sabe poderia até se tornar uma das sócias da empresa se mostrasse como se importava e se esforçava.
Em seis meses de trabalho dobrado, Rebeca teve uma crise de estresse que a obrigou a ficar uma semana em casa; outro foi promovido em seu lugar, deixando-a mais longe da realização de seu sonho. Desamparada e perdida, concluiu que deveria desistir do sonho, que talvez não fosse realmente tão importante como pensara no passado. Resolveu dispensar mais tempo com sua filha. Tentou fazer da menina uma princesinha, desejando que pelo menos a pequena pudesse ser feliz e alcançasse no futuro o que ela, Rebeca, não conseguira.
Contudo, toda a vez que refletia sobre aquele montante de roupas e joias que não poderia comprar, quando via mais um belo prédio oprimindo o seu, quando ficava sabendo de alguma majestosa viagem realizada por seus colegas de serviços, ela tornava-se mais e mais amarga.
Seu tolo marido tentava convencê-la de que o importante era o amor e que as coisas simples eram o que contava.
“Como ele pode pensar assim? É preferível ter um carro magnífico a um qualquer. Ter um apartamento pequeno em um bairro nobre a um grande no bairro medíocre. Ele só quer se redimir pela sua falta de ambição e também pela sua falta de amor por mim. Nem ele reconhece meu valor.”
Tudo o que ela queria era sentir-se importante! Ela desejava ser convidada para festas da alta sociedade, poder conquistar aquilo que lhe era de direito. Cada vez que Giovanni reforçava a beleza de coisas insignificantes, ela tinha vontade de socá-lo, de fazê-lo acordar para a realidade, de mostrar que a vida apenas é miserável se estamos fadados a ser comuns.
Seu coração chegou ao limite quando seu marido lhe obrigou a passar mais uma tarde no sítio dos pais dele. Era a mesma história todo ano, mas dessa vez havia sido pior. Além da tarde ter sido completamente desprovida de luxo, uma “farofada” sem fim, uma das roupas mais caras de sua filha havia voltado manchada e rasgada, e o salto de seu sapato, uma peça caríssima cujas prestações ela ainda estava pagando, havia quebrado.
Naquela noite, decidiu que deveria seguir sua vida sem seu marido. Só realizaria seu sonho de grandeza se ele não estivesse mais ali para puxá-la para a mediocridade. Buscaria um advogado com rapidez, pois o quanto mais rápido se tornasse solteira, mais chance teria de encontrar um homem que realmente entendesse como ela era especial e pudesse junto dela conquistar todas as coisas pelas quais vale a pena lutar. Enfim, ela poderia se tornar uma princesa da vida real, como sua mãe sempre lhe disse que seria.
 Gostou do conto? Confira os acontecimentos posteriores, como Giovanni lidou com a separação e como novos amores ou não cruzaram seu caminhos. Leia Jovem Amor na Amazon. 
Abraços, S. G. Conzatti. 

4 de jan. de 2019

Escolhas - contos interativos, capítulo 1

janeiro 04, 2019 0 Comments
(Nesse conto interativo é o leitor que escolhe o final entre duas opções, qual será sua escolha? )
 
Escolhas, escolhas e escolhas. As pessoas me dizem que a vida é feita de escolhas, que nossos passos alteram o futuro para melhor ou pior. Isso parece promissor: ser capaz de decidir o caminho que iremos trilhar. Mas como se pode dizer que há uma escolha consciente quando não podemos prever aonde esta irá nos levar?

Hoje eu acordei e decidi usar uma blusa azul ao invés do habitual preto. Grande coisa! Como se isso pudesse mudar meu desânimo...

Há dias que lamento não ter sido promovida. Dediquei-me, fiz horas extras, estudei e mantive-me com um sorriso nos lábios toda vez que o chefe contou suas piadas sem graça. Ou seja, realizei inúmeras escolhas durante esses anos na empresa imobiliária que trabalho. Pareciam ser opções promissoras, corretas como mandam qualquer cartilha de como conseguir uma promoção. Para quê? Para uma novata, peituda e sem experiência, agora ganhar o salário que tanto almejei?

Depois, meu grande amigo, David, diz que estou errada quando coloco ele e todos os outros homens no mesmo balaio e digo que as mulheres estão melhores sozinhas. Afinal, como confiar em seres que veem peitos e não competência? Digam-me, como os peitos irão ajudar em vistorias imobiliárias, análises de alicerces e paredes? Uma lógica incompreensível.

Desiludida com o rumo de minha carreira, decidi utilizar a quinzena de férias para entregar novos currículos e fazer alguns contatos. Na esperança de realizar uma troca, arrumar um emprego onde minhas escolhas tenham algum peso. Ou será que estou errada e deveria aproveitar para colocar silicone? É uma escolha, não é? Uma que vai de encontro a todos os anos de dedicação e estudos para alcançar uma vida financeira mais tranquila, mas é uma escolha, mesmo que seja uma um tanto desesperada e oposta às que fiz até agora.

Ri ao imaginar-me chegando turbinada no emprego. Será que seria promovida? David iria repreender-me e diria que uma mulher deve se valorizar pelo o que é e não se transformar em outra. Fácil para ele ter essa conclusão, já que é um ótimo exemplar masculino e nunca perdeu a concorrência no serviço para um mais musculoso do que ele.

David, o maravilhoso. Sim! Tão perfeito que me foi difícil suprimir esse grande detalhe de nossa amizade. Conhecemos-nos na faculdade e eu, assim como boa parte das calouras da Arquitetura, encantei-me nele, um dos cinco homens da sala. Contudo, ao final do semestre havíamos nos tornados amigos e todo o interesse romântico desapareceu, não só porque ele era noivo na época, mas também por nos percebermos tão diferentes.

Estranho como pessoas distintas se tornam melhores amigos. Eu, uma consumista deprimida agarrada aos estudos e um tanto frustrada com a vida, e ele, um ambientalista nato que abandonou os estudos para tornar-se professor de surf e viver algo próximo ao paz e amor dos hippies. Como ficamos amigos? Nem eu sei. Apenas aconteceu. De conversa em conversa, a amizade foi enraizando-se e, agora, não há nada em nossas vidas que não passe pela crítica e observação do outro.
 
Leia o próximo capítulo (em breve)
ou confira o conto completo e escolha seu final na Amazon

Beijinhos, S. G. Conzatti

2 de jan. de 2019

A filha do pescador

janeiro 02, 2019 0 Comments

A água salgada ia e vinha acariciando a areia em seu movimento contínuo sem fim. A poucos metros, com a primogênita nos braços, sentada sobre as pedras, Andréia observava mais um entardecer.
Os pescadores locais, vestindo bermudas e camisetas, adentraram o braço do mar no lado oposto à praia. O vento e a água gelada não os afastavam, era temporada de tainhas. Firmes no banco de areia na beirada do canal, os homens atentos fitavam a imensidão líquida à frente na espera dos visitantes especiais que indicavam o melhor momento de jogarem suas tarrafas.

Andréia também os esperava. Há anos ela se sentava nas pedras à beira-mar, em um ritual, primeiro de admiração a seu pai e agora, ao seu marido Otávio.
Sorridente, ela acenou ao marido. O tarrafeiro no lado oposto do canal lhe mandou um beijo em resposta. Ambos se agradavam dessa companhia vespertina, ela atenta às belezas de seu lar e Otávio aos peixes.

Ela recordou-se da primeira vez em que foi convidada a estar com o pai do outro lado do canal, um presente inesquecível de dez anos. Ao chegarem ao lugar de pesca, o pai estendeu a tarrafa pela areia e conferiu as amarras da rede. Ansiosa, ela acompanhou os movimentos daquele homem, atenta as instruções dadas com gestos confiantes. Desde criancinha, ansiava por estar ali com ele, ver com seus próprios olhos as histórias contadas na mesa de jantar.

A água gelada lhe fez recuar. O pai a incentivou lhe dando a mão, adentraram com passos calculados no mar. Ao lado do pai, protegida por seu braço, ela esperou e esperou atenta a água. Quando pensava que sua primeira experiência de pesca fosse frustrada, os botos cinzas apareceram.
Ela seguiu o movimento do pai, em um atirar conjunto das tarrafas, assim como seus companheiros de pesca. Seus olhos infantis fixaram em encantamento aos botos, que percorriam o canal como se flutuassem na água, jogando porções de peixes para as redes dos pescadores. Como agradecimento, os homens sempre devolviam ao mar algumas tainhas diretamente para as bocas dos botos ajudantes.

Entre todos os animais, um bem pequeno lhe chamou atenção. Um filhote, o pai lhe disse. Era sua primeira aparição no canal, assim como ela. Os tarrafeiros lhe desafiaram a nomear o pequeno, contudo nenhum nome parecia adequado para um serzinho tão gracioso.

A responsabilidade de dar um nome ao novo boto preencheu sua mente, e assim ela voltou a praia após o jantar, era o melhor lugar para pensar. O começo da estação fria havia afastado os turistas e as areias encontravam-se desertas.
Pensativa, ela caminhou sobre os grãos claros que por vezes eram carregados pelo vento como bailarinos a dançar no ar, enquanto algumas ondas mais ousadas molhavam seus pés.

De repente, avistou algo a se debater na areia mais adiante. Ao se aproximar, o coração de Andréia disparou em desespero. O pequeno boto estava encalhado na areia e as ondas o empurravam cada vez mais para a praia. O animal se retorcia na tentativa de retornar ao mar, sem forças para isso, enquanto os outros de sua família se mantinham a uma distância segura, indo e vindo à superfície em uma dança angustiada.

Andréia correu até o filhote. Em um momento de desespero, tentou puxá-lo pela cauda de volta para o fundo, mas era muito pesado para uma garota magrela de dez anos. Ela gritou para o calçadão em busca de ajuda enquanto jogava pequenas porções de água com as mãos em formas de conchas na pele úmida e lisa do boto.
Um garoto um pouco mais velho passava de bicicleta.

— Socorro! — ela voltou a gritar aflita.

O garoto veio ajudar, demorou um pouco a compreender o que acontecia. Quando ele avistou Andréia jogando água sobre um pequeno boto, ele sorriu e se aproximou. Juntos conseguiram carregar o filhote para dentro da água salgada.
Emocionados e molhados, Andréia e o garoto suspiraram aliviados quando o filhote voltou para sua família marinha e em poucos minutos desapareceu nas profundezas.

— Adeus, Pequeno Guerreiro! — ela gritou ao mar, por fim satisfeita por encontrar o nome perfeito.
Naquele momento ela sabia que estaria ligada de alguma forma a esse pequeno boto. Mas o que ela não sabia, e só veio a descobrir alguns anos posteriores, é que naquele dia conhecera o amor de uma vida.

Cada vez que Andréia se sentava nas pedras ao final do dia, ela recordava do pequeno filhote e como Otávio veio ao seu socorro. Olhou de relance para o grupo de pescadores do outro lado da margem e sorriu ao acompanhá-los pacientemente à espera da hora certa de jogar o tarrafo.
A água tranquila do canal tremulou, uma nadadeira dorsal apontou na superfície. Os pescadores prenderam a respiração e posicionaram as tarrafas, ela se levantou das pedras para melhor contemplar quando um boto cinza saltou, seguido de mais três e voltaram a mergulhar em um balé de fartura no encontro com o cardume de tainhas. A bebê em seus braços bateu palmas e sorriu.

Assim que os botos passaram, os pescadores receberam suas recompensas dessa antiga parceria entre mamíferos. Alguns dos homens acenaram agradecidos aos botos quando recolheram as tarrafas recheadas para o sustento da família.

Andréia também acenou e riu deslumbrada, quando o menor dos botos se aproximou de onde ela estava e pulou em cumprimento. A ligação estabelecida entre ela e o “Pequeno Guerreiro” se mantinha firme, mesmo depois de tantos anos.

Podia ser apenas uma superstição de filha de pescador, mas ela acreditava que os dias brindados com a presença do “Pequeno Guerreiro” eram prelúdios de boas notícias. Sorridente, Andréia beijou a bochecha da filha e desejou que a pequena pudesse crescer também com a presença desses magníficos mamíferos, assim como seus netos, bisnetos e tataranetos.


O conto faz parte da coletânea Contos de Imbé, após ser selecionado no concurso de comemoração ao aniversário da cidade de 2014. A cidade litorânea de Imbé, pela qual tenho muito carinho por fazer parte de minha infância a adolescência, me presenteou com esse resultado.

31 de dez. de 2018

Divã Vermelho- conto

dezembro 31, 2018 0 Comments

A chuva torrencial escorria pela grande vidraça do consultório. Observei os faróis a alguns andares abaixo ao esperar minha última paciente da semana, Srta. Luna Missio. Aceitara atendê-la fora do horário, no avançado da noite, pois era difícil dizer não a uma criatura tão formosa.

Um suspiro cansado ecoou de minha garganta, passei os dedos pelo cabelo salpicado dos primeiros fios brancos. Nesse exato momento meu único desejo era relaxar na banheira ao som de música clássica enquanto fumava um cigarro.

O silêncio se interrompeu por duas batidas suaves na porta, a espera acabara. A jovem entrou no consultório retirando o longo casaco encharcado pela chuva, sacudiu os cabelos louros e encarou-me de modo enigmático.

— Continuamos de onde paramos na sessão anterior?

— Como desejar, senhorita.

Convidei-a com um gesto a se deitar no divã vermelho de veludo e sentei em minha cadeira habitual de psicanalista mais atrás. Discreto, vasculhei minhas anotações da sessão anterior, à procura da primeira de Luna. Entre tantos pacientes, às vezes, era difícil recordar as particularidades de cada um. “Em luto pela morte do pai” foram as únicas palavras escritas por mim, mas seriam suficientes para retomar.

Luna respirava lentamente observando a água escorrer pelo vidro da janela. Na sessão anterior foi o mesmo. Ela tinha seu próprio tempo para começar e eu paciência para esperar.

— Sinto falta de caçar com meu pai. — ela soltou em um suspiro pensativo sem desviar o olhar da chuva.

— É o que mais sente falta? — observei na tentativa de compreender sua dor.

— Uma caçada foi nosso último momento juntos. Meu pai era o melhor caçador de nosso grupo — Luna respondeu com força, indicava mágoa. Seu olhar me analisou em silêncio.

Senti-me incomodado, tinha uma espécie de fogo naqueles olhos claros, um misto de raiva e desejo.
— Como se sente sobre isso?

Ela desviou o olhar novamente para a chuva. A aceleração do movimento de sobe e desce de seu peito me mostrou sua tristeza. Minha intuição treinada me dizia haver algo não dito. Fatigado, passei a mão nos cabelos à espera da resposta.

Observei-a de relance, ela possuía uma pálida beleza intrigante, com cabelos e cílios claros quase brancos e olhos azuis como piscinas. Os lábios vermelhos contrastavam com o resto monocromático, constantemente sérios. A jovem tinha uma sensualidade natural, como se todos os movimentos, desde sua respiração e o modo como olhava melancólica a chuva, me convocasse a tocá-la.

Rapidamente desviei o olhar, havia cometido alguns erros no passado ao me envolver com mulheres jovens. Erros que custaram meu casamento e quase a perda de minha licença, não erraria novamente.

— Dr. Machado, você já caçou? — Inesperadamente ela me fitou em clara fuga da pergunta anterior.

— Estamos aqui para compreender você, não para falar de mim — disse no automático profissional, embora começasse a suar frio quando ela mordeu o lábio inferior. Meu olhar focou os ponteiros do relógio na parede imaginando se aguentaria manter escondido meu impulso predatório até o fim da sessão.

— Queria saber sua resposta. — Ela girou o rosto, me encarando enigmática. Ajeitei-me na cadeira, desviei o olhar para minhas anotações. Aqueles olhos translúcidos dificultavam minha luta interna em manter-me profissional. — Então, Dr. Machado, você já caçou alguma vez? — Ela se sentou no divã, mantendo seu olhar no meu.

— Não é um costume. — Engoli em seco, confuso se a forçava a retornar para suas questões ou mantinha essa linha de conversa. Ela mordeu os lábios em espera, isso me desarmou completamente.

O terapeuta desaparecera e o modo homem entrou em ação. — Participei, a alguns anos, de uma caçada a porcos selvagens com uns amigos.

— E como foi? — Os olhos dela me focaram com intensidade enquanto ela ia em direção ao seu casaco úmido, que fora pendurado no cabide atrás da porta, e retirava um maço de cigarros do bolso.

— Emocionante — respondi acompanhando-a com o olhar. Luna retirou um cigarro do maço ao sorrir discretamente. — Você não pode fumar aqui — relembrei-a ao girar a cadeira em sua direção, ela mordiscou a ponta do cigarro em um meio sorriso ao ignorar minha proibição. O flerte estava cristalino, e eu o aceitei com deleite. — Encontramos um lobo branco — comentei na tentativa de salientar minha masculinidade. — Você vai dizer que é mentira. Lobos não deviam existir na América do Sul, mas ele estava lá.

— E você o pegou?

— Sim. — Minha respiração parou quando ela se inclinou e manteve seus olhos emparelhados aos meus, sua mão retirou do bolso de meu casaco meu isqueiro. Quero tocá-la! Pigarreei. — Não conte isso para ninguém. Provavelmente ter um tapete de lobo deve ser ilegal. — tentei me exibir para ela.

— Um tapete! — Séria, ela ergueu a sobrancelha ao acender o cigarro.
Sorri sedutor ao acenar positivamente. Quem sabe poderia convidá-la para ver o tapete? Que coisas inomináveis faríamos sobre ele! Soltei um longo suspiro.

— O senhor tem muitos segredos, Dr. Machado. — Ela deixou o cigarro dançar entre seus dedos, para depois o apagar em minha mesa de madeira. Abri a boca chocado decidido a repreender seu ato de rebeldia. Contudo, ela apoiou a mão em meu ombro e eu apenas me calei. — Sentiu-se poderoso ao matar o lobo, não é?

— Com certeza! — respondi com força. A adrenalina já corria por minhas veias, saboreei o cheiro de seu perfume o qual nem a fumaça do cigarro foi capaz de diluir.

— A grama tornando-se vermelha... — sua voz era suave. Em um movimento sedutor, ela se sentou em meu colo, mantinha as mãos sobre meus ombros. Suspirei desejoso ao agarrar-lhe a cintura. — o animal dando seu último uivo... — um arrepio dançou em meu pescoço com a vibração de sua voz próxima a minha pele, e voltou a me fitar com profundidade. — em um tiro que arrancou seu olho direito. Um ferimento fatal!

— Como sabe disso? — Surpreso encarei-a.

— Eu estava lá!

O sorriso dela se tornou maligno. Os olhos claros pareciam chamas azuladas a queimarem. Assustado e sem compreender o rumo louco daquela conversa, tentei empurrá-la para longe, mas uma dor lancinante atingiu meus ombros.

Horrorizado percebi o sangue escorrer por minha camisa quando suas unhas se tornaram garras e perfuraram minha pele. Antes que eu pudesse controlar, um grito ecoou no fundo de minha garganta ao me deparar com o rosto à minha frente. A delicadeza sumira, os olhos agora tinham um aspecto selvagem e os caninos se projetaram em um focinho de animal.

— O quê?! Deixe-me ir, por favor! — implorei como uma criança, ao tentar me soltar. Aquilo à minha frente não era humano.

Com um rosnado profundo, ela abocanhou meu pescoço com os caninos proeminentes tirando parte da carne, então se afastou. A dor causou-me tontura, mas eu não me deixaria desmaiar. Coloquei as mãos na ferida, meu próprio sangue escorria quente entre meus dedos.

Arrastei-me pelo chão em direção à porta. A chave não estava mais na maçaneta onde eu a deixara. Você está ferrado!, minha mente gritou. Em pânico, bati com os punhos na porta. Sem a chave, seria impossível. O prédio estava vazio nessa hora avançada. Por que aceitei atendê-la?

— Sabe, foi difícil encontrá-lo. — Ela sorriu largamente em gozo, ainda em sua forma meio-humana e meio-lobo.

O que faço? Tentava me manter acordado. Precisava pensar em um modo de escapar desse monstro com rosto de anjo. Minha chance estava em chamar a polícia. Arfando vasculhei meu bolso, com apenas uma mão, à procura do celular sem o encontrar. Meu coração gelou quando avistei Luna sorrir irônica ao mostrar sobre suas mãos a chave e o celular.

— Estou à sua procura há muito tempo. Um tempo adequado para ter aprendido a caçar, afinal. — Ela se levantou e veio até mim. Minha visão começava a embaçar, e sem forças, escorreguei as costas na porta até alcançar o chão.

— Por favor... — engasguei-me no meu próprio sangue. — Deixe-me ir...

— Você deu chance para meu pai? — O rosnado saído de sua garganta fez eu me encolher. — Oh, não! Você apenas atirou pelo prazer de matar, sem pensar nas consequências de seus atos. Usando de covardia, se achando muito macho com uma arma na mão.

— Peço perdão... — Minha voz saiu tremida. Tossi sangue. — Deixe-me ir, por favor... por favor... Deixe-me ir!

Sem dizer nada ela retornou ao estilo humano e meigo de garota de antes, limpou o meu sangue presente em seu rosto com a manga da blusa. Colocou a chave na porta e a abriu.

Sem perder tempo, usei-me das últimas forças para me erguer.
Vacilante, dei o primeiro passo em direção à liberdade. Se conseguisse chegar ao elevador, poderia descer até o porteiro que certamente me levaria ao hospital a poucas quadras de distância. Havia esperança. Sim, havia esperança.

Minha saída foi barrada por um jovem recém-saído da adolescência. Em desespero, agarrei-me à sua camisa em pedido de socorro. Mas, então, minhas últimas forças foram gastas em um grito horrendo ao perceber o brilho selvagem nos olhos dele.

— Seria egoísmo não dividir a caça com o irmão mais novo, não acha? — Ela sorriu vitoriosa ao lado da porta.

Antes que eu pudesse gritar novamente dois lobos brancos, que antes eram Luna e o garoto, me arremessaram no divã.

Meu sangue se misturou ao veludo rubro. Minhas entranhas foram abertas pelos caninos daquelas criaturas monstruosas, a vida se esvaiu. Pensei ser um predador, mas a verdade, agora eu sabia, eu não passava da presa.

Gostaram do conto? Essa história faz parte de muitas outras do Universo Solstícios de Sangue, ainda em construção. Outros textos de lobisomens na Amazon. 
Beijinhos, S. G. Conzatti. 

30 de dez. de 2018

Ponte: capítulo 1

dezembro 30, 2018 0 Comments
Os pés me carregavam pela estrada sem rumo ou objetivo. Os raios de sol, aos poucos, eram abocanhados pela noite. Sentia-me como o sol, incapaz de lutar contra a escuridão.
Para aonde ir? Para que respirar? Para que lutar? Para quê? O vazio era meu novo companheiro. Como Ana pôde fazer isso comigo? Destruir meu coração sem piedade?
Como um amor tão avassalador pôde virar indiferença? Ana, o que você fez com nossos planos? Você se esqueceu das juras de amor realizadas com o testemunho da lua?

Uma pedra no caminho recebeu meu desgosto ao ser chutada. Rolou para dentro do matagal sendo separada de suas outras irmãs. Os faróis de um carro me cegaram por instantes. Tossi por causa da poeira levantada da estrada de terra.

O que eu fazia aqui no meio do nada? Depois que tudo aconteceu, eu apenas corri. Deixei que meus pés me guiassem para o mais longe possível daquela cena.
Um suspiro choroso escapou dos meus lábios. Lembrar daquilo fazia cada parte minha estremecer. E nada mais de estrada, poeira, ou faróis, a única coisa que meu cérebro conseguia focar era a lembrança do rosto de Ana.

Não o rosto que amei por tantos anos, e sim o rosto de alguém que não parecia mais a minha Ana. Alguém que não compartilhava mais uma vida comigo e que, provavelmente, nunca mais compartilharia.
Nossa história era para ser contada em magníficos livros de romances. Não apenas meu coração sabia disso, todos a nossa volta concordavam. Ana e Anderson, o casal perfeito, que dava inveja a qualquer outro.

Nós éramos como um só. Havia tanto amor em apenas um olhar compartilhado, então os olhos de Ana simplesmente já não refletiam os meus.
O que acontecera com aquela paixão descontrolada que nos agarrou quando ainda éramos colegas de escola? Ela foi meu primeiro amor e eu o dela. Juntos descobrimos os sabores dos beijos, o calor das carícias, os prazeres de nossos corpos.

Éramos tão unidos que não precisávamos de mais ninguém. Quando estávamos tristes, era um ao outro que procurávamos. Se as novidades fossem felizes, eram nos mesmos braços que pulávamos empolgados. Nunca precisei de mais ninguém. E pensei que para ela fosse o mesmo.
Ao passarmos no vestibular para o mesmo curso, fizemos incontáveis planos para o nosso futuro. Então, depois de um semestre ela jogou tudo fora!

De repente, minha presença não bastava. Minha fala a incomodava e nossos beijos escassearam. Sem explicação, Ana pediu transferência para outra faculdade, consequentemente, outra cidade.
Tentei entender. Tentei dar espaço como ela pediu. Não liguei mais diariamente, mesmo que o impedimento de ouvir sua voz me brindasse com insônia. Fiz exatamente o que ela pediu, porque no fim eu sabia que uma história de primeiro amor como a nossa nunca chegaria ao fim.

Mas então tudo desmoronou. Cobri o rosto com as mãos, como se isso pudesse afastar a última imagem de Ana de minha mente. A respiração me faltou, minhas pernas perderam a força.
Cambaleante, como um bêbado, me arrastei pela estrada, deixei o corpo descansar nas pedras úmidas, grandes e cinzas de uma ponte antiga para pedestres com destino a uma comunidade do interior rural da cidade.

Sentado naquelas pedras frias, encolhi os joelhos contra meu peito. Tentei inspirar, o ar me faltava. A dor em meu peito só aumentou.

Por que fez isso comigo, Ana? 

Gritei para a lua parcialmente coberta pela névoa. A escuridão se intensificava. A estrada em que meus pés tocaram anteriormente já não era visível, e nem faróis esporádicos se aventuravam mais.
O olhar de indiferença de Ana, de quando nos cruzamos na rua, voltou a assombrar minha mente.

Nosso encontro não foi combinado. Ela estava na cidade há uma semana para visitar os pais, embora eu não soubesse disso naquele momento.
Ao avistá-la na rua na companhia da mãe, corri até ela. Pensei que ela estava ali para me fazer uma surpresa. Que talvez houvesse desistido das coisas sem sentido do último mês e que nossa perfeita história de amor seguiria o seu destino.

Suas mãos me afastaram como se eu fosse um pedinte. E a voz doce soltou o verbo ligeiro. Palavras sobre uma nova vida, sobre novos sonhos e coisas que eu não entendia.
Então as palavras se tornaram uma lança e atingiram meu coração. “Eu me apaixonei por outro”, ela comunicou. E quando me mantive estático, em choque, Ana completou: “Siga sua vida, Anderson. E não me procure mais”.

Seguir minha vida? Que vida? Você era minha vida!, sussurrei para a escuridão.

O vento gemeu em meus ouvidos, como se compartilhasse de minha dor. Abaixo da ponte, a água distante desaparecia entre a grossa névoa que mais e mais se aproximava. Seus braços fantasmagóricos começavam a me envolver. Um abraço gélido como a morte.
Prendi o ar e estiquei os pés para o nada branco, me entregaria ao fim.

— Águas profundas não são a resposta para nada. — Uma voz suave ecoou ao meu lado esquerdo.
O movimento impulsivo foi paralisado, meus dedos agarraram a borda da ponte com força. O olhar procurou a dona da voz com uma lentidão amedrontada. O coração disparado.

Meu olhar alcançou uma jovem com o rosto parcialmente encoberto pelo capuz do casaco, não muito mais velha do que eu, em pé ao meu lado com os braços apoiados na borda também contemplando a água.

De onde essa criatura veio? Observei ao redor. Nada de casas, carros, bicicletas ou qualquer indício de que havia algo nas redondezas.
Fechei os olhos ardidos por causa das lágrimas ácidas já derramadas, na dúvida se tal garota era real.
Seria o chamado da morte? Um fantasma?

— Não faça isso! — A voz feminina suplicou baixinho quando seus dedos gelados envolveram meu pulso, com mais força do que eu poderia imaginar, para então voltarem a se esconder nos bolsos do seu casaco.

O choque afastara meu impulso autodestruidor. Neste momento, aquela presença inusitada ganhara minha atenção. Um medo me dominou. E se ela fosse um ser sobrenatural à espera de minha fraqueza, para roubar minha alma? Será que histórias de vampiros eram verdadeiras?
Lentamente voltei para a segurança da ponte, mantive meu corpo afastado do da garota. Ponderava uma rota de fuga enquanto seus olhos encaravam os meus com intensidade. Era como se ela pudesse ler meu sofrimento.

— O que quer que tenha acontecido, você deve saber que as coisas sempre mudam. — Ela soltou ao vento sem virar seu rosto em minha direção.

— Como pode saber disso? — desafiei. Não aceitaria nenhum “contrato de sangue” e nem venderia minha alma.

Por que me importo? De repente percebi que há um minuto eu pretendia lançar minha vida ao nada. Não era o mesmo que desistir de minha alma?

— Só sei. — Então seus olhos prenderam-se aos meus. — Toda vida é preciosa.

— Nem toda. Algumas trazem apenas sofrimento. — Desviei o olhar e me reconectei com o buraco sangrento que Ana me infligira e que antes fora meu coração.

— Me dê uma chance de provar o contrário.

— Por que se importa? — resmunguei com vergonha ao dar um passo para longe dela.

— Você precisa de uma amiga — disse sem responder minha pergunta. Ela estendeu a mão em minha direção. — Me deixe ser essa amiga.

— Você nem me conhece! — Essa conversa era alucinação? E se eu já tivesse caído?

— Mas quero conhecer. — Um sorriso tímido, forçando simpatia se formou no rosto dela. — Você ia desistir de tudo. O que tem a perder ao me dar uma chance.

— Você quer me enganar? — Sobre o quê e como eu não sabia, mas tinha algo muito estranho nessa história toda. Ela negou veementemente com um aceno, enquanto seus olhos se mantinham fixo em mim com tristeza. — Tudo bem.

Aceitei sua mão e a acompanhei em silêncio pela estrada de terra para longe da ponte.
Meu coração já estava semimorto mesmo, Ana arrancara uma parte e eu sabia que nunca mais seria possível me livrar dessa dor. Mesmo assim me deixei ser levado pela garota misteriosa, pelo simples fato de que seria impossível abdicar de mim enquanto ela estivesse ali me olhando. E depois, por que não poderia morrer em paz enquanto não descobrisse quem era e como essa garota me encontrou ali.
 
 
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Beijinhos, S. G. Conzatti

29 de dez. de 2018

Fome: capítulo 1

dezembro 29, 2018 0 Comments
Primeiro Capítulo:

O trio de amigos se reunia na sorveteria, planejavam os últimos dias de férias antes que suas vidas se modificassem para sempre. Deixariam a segurança da pequena escola e se aventurariam nos imensos corredores da universidade.

Lipe insistia que a amizade seria a mesma, não importava se os cursos escolhidos eram diferentes. Nando se mostrava pessimista. Lucas os ouvia sem opinião, enchia a boca com o crepe quádruplo de queijo e calabresa. Desde que ele fizera dezoito anos, na semana anterior, sentia uma fome constante.
Seus amigos diziam que era hormonal, que eles também passaram por isso no período de crescimento, em anos anteriores. Mas Lucas discordava, tinha impressão de que sua fome estava relacionada à pressão por entrar na vida adulta.

Fazer medicina era seu sonho, e ter passado no vestibular e ainda conseguido uma bolsa parecia bom demais para acreditar. Até sua mãe, uma constante criatura assustada, sorria feliz nestes últimos dias. Era muita responsabilidade, e ele tinha medo de estragar tudo.

— Vejam o que consegui. — Nando jogou sobre a mesa três ingressos para o show de uma banda novata um bocado underground.

— Isso é perfeito para nosso último final de semana. — Lipe sorriu ao analisar os convites pretos com o nome da banda escrita em vermelho como se fosse sangue escorrendo.

— Eu havia combinado de ficar em casa com minha mãe — Lucas se pronunciou. Os amigos lhe lançaram um olhar de deboche, e ele suspirou condescendente. — Ok. Vamos ao show.

Deram-lhe tapinhas amigáveis nas costas ao saírem após combinarem o local de horário de encontro. Ir ao show seria interessante, o problema seria lidar com a frustração de sua mãe.

Os amigos não compreendiam por que ele deixava, com certa frequência, de sair com estes para fazer companhia à mãe. Mas como ele podia deixá-la sozinha com seus medos noturnos? Ela era uma mulher que vivia sobressaltada. Pessoas passando na calçada, ligações, entregadores a baterem na porta, ou apenas um animal pulando no quintal a assustavam de modo a trancar todas as portas e janelas e permanecer tremendo e rezando até o amanhecer.

Lucas perdera as contas de quantas vezes ele fora puxado pelo braço de maneira inesperada e arrastado para fora de um mercado ou uma loja por sua mãe ter visto alguém que lhe causasse pânico. O garoto acatava o gesto dela e lhe seguia silencioso para longe, por desconfiar que todo esse medo era resquício do sofrimento causado pela morte misteriosa de seu pai, quando Lucas era um bebê, a respeito da qual a mãe nunca falava.

Você precisa seguir sua vida! Não poderá mais cuidar da sua mãe, estará envolvido com a faculdade.

A voz em sua cabeça lhe avisava. Ao menos esperava que ao final da medicina tivesse capacidade técnica para curar esse medo crônico de sua mãe.

Ao chegar em casa abriu a porta com cuidado, sem fazer ruído. Usou-se de usa agilidade atlética bem desenvolvida para subir as escadas, passar pela porta do quarto da mãe e alcançar o seu próprio, sem acordá-la de seu descanso da tarde.

Trocou a roupa, tentou encontrar uma camiseta que combinasse com o clima underground do show, encontrou uma preta com a imagem de um zumbi que ganhara juntamente com o box da primeira temporada de Walking Dead em uma rifa da escola, há alguns anos.

Olhou-se no espelho e se achou ridículo, mas servia para o show. Provavelmente Lipe e Nando estariam ainda piores.

Antes de sair, fez um carinho no querido hamster ao aproximá-lo do rosto e beijar seu focinho, largou-o com cuidado sob a rodinha da gaiola e deslizou ligeiro e silencioso pelas escadas até a porta de entrada. Planejava escrever um bilhete para a mãe, mas percebeu-a acordada fazendo o jantar.

— Por Deus, Lucas! — A mãe botou a mão sobre o coração, ao perceber sua presença na porta da cozinha. – Por onde você veio? Não o havia visto.

— Pela escada e depois pelo corredor. — Lucas sorriu amigável. — O mesmo caminho de sempre.

— Não implique com sua mãe — ela o repreendeu. E ao observá-lo ergueu a sobrancelha. — Por que está com essa blusa horrível?

— Vou sair com Lipe e Nando, vamos a um show — ele respondeu de supetão e foi roubar alguns bolinhos de arroz já fritos.

— Pensei que veríamos alguns filmes, e... — Sua voz possuía um enorme desapontamento. Uma sensação de culpa se manifestou, contudo estava decidido a viver mais sua própria vida.

— Você ficará bem e eu ficarei bem. — Ele segurou sua mão, quando ela começou a tremer e derrubou um dos bolinhos fora da panela. — Estarei em casa antes das 23h. Não se preocupe.

— Você está certo. — Ela forçou um sorriso e soltou um suspiro aliviado. — Afinal você já fez dezoito, isso significa que nada de ruim vai acontecer, aquele homem estava errado.

— O quê? — Lucas a observou sem compreender. Minha mãe conversa com homens misteriosos?
Um terapeuta talvez.

— Não é nada. — Ela sorriu. — Você merece se divertir. — Ela lhe beijou a mão, ainda segura entre as dela e sorriu. — Vá, meu filho, e se divirta.

Ver a mãe envolta dessa aura de tranquilidade era raríssimo. Lucas agradeceu a sorte de ela estar em um bom dia. Acenou e saiu antes que o humor dela se transformasse e ele acabasse desistindo de sair com os amigos como fizera tantas vezes.
Confira o capítulo seguinte (em breve)

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